Uma noite há cerca de dez anos, depois de um jantar em família repleto de histórias do meu pai sobre sua infância e juventude em Damasco e no Líbano, fui com minha mãe à cozinha e ela disse: "Algum dia, devemos gravar seu pai contando suas histórias".” Muitas delas relatavam as experiências dele com seus pais e avós paternos, a quem carinhosamente se referia com os termos árabes Jiddu e Teta, vovô e vovó.

Algumas semanas depois, a Galeria Al-Quds em Washington, D.C., pediu que eu considerasse desenvolver o trabalho para uma exposição individual. Durante a conversa, mencionei a possibilidade de uma mostra centrada nas histórias verídicas do meu pai, que culminavam com sua chegada aos EUA. Eu disse à galeria que imaginava uma série de pinturas, cada uma baseada nessas histórias com estilo inspirado na famosa série de Jacob Lawrence, "A Migração do Negro" ("The Migration of the Negro").”  

A galeria adorou a ideia, mas eu tive então de pedir a autorização do meu pai, e essa tarefa acabou não sendo tão fácil. Nascido em 1927 na cidade de Damasco, ele se mudou em 1933 para a Beirute, no Líbano, embora tenha retornado diversas vezes à sua cidade natal para visitar a família. Aos 19 anos de idade, em 1946, meus avós o trouxeram com eles para os EUA. 

Inicialmente, meu pai rejeitou meu pedido, explicando que se tratavam de histórias privadas da família. Minha mãe disse que conversaria com ele. Cerca de uma hora depois, meu pai concordou, ainda que de forma relutante, em escrever suas histórias. 

Por diversas vezes, eu ia à casa dos meus pais em Alexandria, no estado norte-americano da Virgínia, e me sentava à mesa da cozinha enquanto meu pai me mostrava um novo relato em que estava trabalhando. Os contos não eram longos, e a cada um ele adicionava um pouco mais de detalhes. Isso enriqueceu minhas pinturas, além de ter permitido uma intimidade especial durante aquelas conversas. Eu valorizo muito aquela época.

Continuamos por vários anos, uma história aqui e outra ali, até termos 24 histórias. Depois disso, ele disse aquela era a última. 

Até hoje desejo que ele mude de ideia.      

    —Helen Zughaib

Caridade e compaixão

Quando Jiddu contou esta história ao meu pai, ele a introduziu dizendo que seu pai havia lhe contado e que ele nunca a deveria esquecer; e foi também dessa forma que meu pai a transmitiu para mim.

Havia uma vez um amir (príncipe) que possuía um cavalo tão forte e belo que era conhecido por toda a região. Outros amirs o invejavam e tentavam comprar o animal, mas o proprietário recusava todas as propostas. Vender o cavalo, ele dizia, seria como vender um membro de sua própria família.

Um dia, um trapaceiro abordou um dos amirs invejosos e lhe ofereceu roubar o cavalo em troca de um pagamento. O negócio foi fechado.

O ladrão esperou ao lado da estrada onde o amir e seu maravilhoso cavalo passavam todos os dias. Quando o amir se aproximou, o vigarista começou a chorar e se lamentar. O amir parou para perguntar-lhe o porquê, e o homem respondeu que estava muito doente, precisava de um médico e não tinha forças sequer para montar no cavalo. O amir desceu do animal para ajudá-lo e, assim que o outro se sentou na sela, saiu a galope.

A vítima gritou: "Pare, e o cavalo será seu".” O ladrão parou e voltou, com a certeza de que o amir jamais descumpriria com sua palavra. “"Não diga a ninguém que você roubou esse cavalo", pediu o amir. “"Diga que eu lhe dei. Faça isso para que a caridade e a compaixão nunca desapareçam de nossa comunidade."”

Fazendo passas e secando figos

Minha irmã e eu adorávamos visitar a casa do Jiddu e da Teta nas montanhas durante o verão. Tínhamos liberdade para brincar no jardim, fazer novos amigos e passear na mula do Jiddu. Mas os melhores dias eram aqueles em que passávamos no kroum (vinhedo). Tínhamos de sair de casa bem cedo pela manhã porque Jiddu insistia que as uvas e os figos deveriam ser colhidos ainda com orvalho em sua superfície.

Para colher os figos, Jiddu e eu subíamos na figueira, enchíamos o cesto de figos maduros e o baixávamos para entregá-lo a Teta e minha irmã. Elas espalhavam as frutas sobre lençóis, achatavam-nas e, em seguida, cobriam-nas com uma gaze para protegê-las da poeira e de insetos. Depois de aproximadamente dez dias sob o sol quente, os figos estavam secos e prontos para ser armazenados para o inverno.

Fazer passas, contudo, era mais complicado. Teta levava os cachos de uva e os dispunha de forma ordenada em lençóis brancos cobertos com palha. Minha irmã sempre queria que as fileiras de uvas fossem separadas por cor, formando longas listas roxas, pretas e brancas uniformes. Teta fazia a vontade dela, mesmo sabendo que todas seriam misturadas quando secas. Depois que as uvas estavam alinhadas como queria a minha irmã, Teta as borrifava: ela usava ramos de ervas chamados tayyoun – que cresciam naturalmente nas encostas adjacentes ao vinhedo – imersos em uma mistura que preparava com cinzas, água e outros ingredientes, e agitava o líquido sobre as uvas.

Voltávamos todos os dias aos vinhedos para ver como estavam as passas e os figos secos, e para umedecer as uvas. Quando chegava a hora de voltar para casa, levávamos sempre conosco algumas frutas secas e novas histórias para contar a nossos amigos na cidade.

Plantando oliveiras 

Visitar Jiddu e Teta em seu vilarejo na montanha era sempre um prazer. Teta preparava doces especiais e o meu prato preferido. Mas o melhor de tudo era quando Jiddu me levava ao campo. Geralmente, era uma viagem rápida só para ver como as plantas estavam crescendo, mas às vezes, ele me pedia para atuar como "ajudante do Jiddu", auxiliando-o com pequenas tarefas. Durante uma visita, ele me disse que plantaríamos oliveiras. Como ficaríamos no campo de oliveiras durante todo o dia, tínhamos de levar conosco um zuwaidy (piquenique), água e outros mantimentos.

Na manhã seguinte, Jiddu e eu nos preparamos para ir ao campo muito mais cedo que o habitual, acompanhados de uma mula que carregava mantimentos e mudas de oliveira. Trabalhamos duro plantando as mudas em sulcos que Jiddu já havia cavado. Meu trabalho era manter a planta reta enquanto ele cavava um pequeno buraco para cada muda. Depois, eu jogava um pouco de água de um tambor sobre cada nova oliveira.

Durante nossa pausa para o almoço, eu disse a Jiddu que voltaria no ano seguinte para ajudá-lo a colher as azeitonas. Ele sorriu e disse que isso seria difícil, porque as oliveiras levam muitos e muitos anos até gerar frutos. Desapontado, eu lhe perguntei por que estávamos nos preocupando em plantar oliveiras se já estaríamos mortos quando elas dessem azeitonas. Ele me olhou com uma expressão séria e disse: "Zara'u fa akalna, nazra'u fa ya'kulun"” ("Eles plantaram para que pudéssemos comer; nós plantamos para que nossos descendentes comam").

A caixa de espetáculos
(sanduk al-firji) 

Muito antes de o cinema ou a televisão entreter as crianças libanesas, havia a sanduk al-firji. Era uma caixa semicircular decorada de forma brilhante e que um artista itinerante levava amarrada às suas costas. Ele aparecia no vilarejo entoando bem alto a prévia de suas histórias, indo de hara em hara (rua em rua) até terminar na praça principal.

Primeiro, ele desamarrava o sanduk. Ela tinha cerca de 45 centímetros de altura e cinco ou seis "janelas" de vidro separadas umas das outras a uma distância regular. Em cada extremidade da caixa, havia duas pequenas hastes internas presas a um rolo com imagens bem brilhantes que contavam uma ou mais fabulosas histórias árabes, como "Antar and Abla" ou "Abu Zayd al-Hilali".”

O artista colocava a caixa sobre uma base e armava um banco circular à sua frente. As crianças do vilarejo revezavam-se entregando seu kharjiyyi, dinheiro para despesas, e em grupos de cinco ou seis, olhavam dentro da caixa e assistiam à história através de suas pequenas aberturas. O apresentador rolava a tela, cantando sobre a beleza das mulheres, a coragem dos homens e a força de seus cavalos. Geralmente, aqueles espectadores mais afortunados cediam seus lugares a irmãos ou amigos que não tivessem kharjiyyi suficiente.

Quando todos aqueles que queriam assistir à apresentação já estivessem satisfeitos, o artista amarrava a caixa de espetáculos à suas costas, recolhia a base e o banco, e seguia para o vilarejo seguinte, entoando prévias de suas histórias e seduzindo novos espectadores.

Para mim, era impressionante naquela época como ele sincronizava a história com as imagens exibidas na tela rolante. E a caixa em si, a linda sanduk com suas imagens coloridas e muitos pequenos espelhos, era uma fonte de maravilhas, mesmo sem as histórias. 

Caminhada até a fonte de água (Mishwar' a al-'Ayn)

Antigamente, o único abastecimento de água do vilarejo era a fonte comunitária. Jovens mulheres, as sabaya, caminhavam à fonte no horário do pôr do sol, equilibrando jarros de água grandes e coloridos sobre suas cabeças. Com o tempo, esse percurso para buscar água se tornou um evento social muito esperado, conhecido como mishwar (caminhada).

Na fonte, as sabaya exibiam seus finos vestidos, conversavam e faziam fofocas. Os homens jovens do vilarejo, os shabbab, também iam até a fonte no mesmo horário para observar e flertar de forma inocente com aquelas jovens mulheres. Ocasionalmente, um homem ou uma mulher jovem reunia coragem suficiente para dizer uma ou duas palavras a alguém especial.

Com o passar do tempo, as mishwar permaneceram como um costume aceito, e os jovens do vilarejo continuavam a fazer suas caminhadas no fim da tarde, tendo ou não água corrente em suas casas. As sabaya e os shabbab se encontravam, admiravam e flertavam a uma distância segura.

Jogando basara no quarto da Teta 

Na Síria e no Líbano, basara é um dos jogos de baralho mais simples e fáceis. Os mais velhos da família ensinam aos mais jovens como jogá-lo. Quando todos os demais recursos não funcionavam e um adulto queria que as crianças ficassem tranquilas e longe de problemas, a solução era jogar basara.

Minha avó, Teta, não fugia a essa regra. Quando o clima não permitia que brincássemos do lado de fora, Teta sugeria um jogo de basara. Algumas vezes, nós mesmos o sugeríamos, sabendo que comeríamos algo gostoso ao final das partidas.

Teta se sentava sobre o tapete de seu quarto e fazíamos um círculo à sua volta. Ela geralmente distribuía as cartas, mas às vezes, para nos agradar, perguntava se algum de nós queria distribuí-las em seu lugar.

Adorávamos jogar basara com a Teta. Ela desconsiderava as pequenas trapaças e garantia que algum de nós sempre ganhasse. Para nós, Teta parecia muito velha. Naquela época, não conhecíamos ninguém mais velho. Sua cabeça era envolta por um colorido lenço adornado com miçangas, seu mendeel. Teta vestia várias saias, uma sobre a outra, com um avental em cores vivas por cima. Ficávamos fascinados com suas saias. Sob duas ou três delas, Teta tinha uma bolsa de pano feita em casa, dikki, amarrada ao redor de sua cintura com uma faixa. Nessa bolsa, ela mantinha alguns trocados e chaves. Uma chave, a que mais nos interessava, abria um pequeno guarda-louça de madeira em seu quarto, no qual ela guardava biscoitos e doces. Outra chave abria uma grande caixa de madeira laqueada, onde ela mantinha seus pertences mais finos e preciosos, além de algum dinheiro de maior valor.

Depois do jogo, começávamos a importunar Teta pedindo que ela nos mostrasse o que tinha em seu guarda-louça. Quando algum pedido indireto para ver o interior do pequeno e desejado armário não tinha sucesso, surgia um apelo conjunto por doces. No geral e de várias formas, este apelo costumava funcionar, e os doces apareciam e eram distribuídos. Quando não havia muitos doces, eram distribuídos uns trocados, o que chamávamos de nigl.

Noites no kroum

Todo verão, eu passava várias semanas na casa dos meus avós em Zahle, um vilarejo libanês localizado nas montanhas. A melhor parte da visita era uma viagem que Jiddu e eu fazíamos ao kroum, ou vinhedo. Lá, passávamos uma semana trabalhando, conversando e compartilhando alguns momentos juntos. Durante o dia, nós dois trabalhávamos no campo. Ele me dizia o que fazer e explicava por que as coisas eram feitas de determinada maneira. Jiddu não passava o dia todo falando só comigo; ele também falava com as árvores e videiras, como se fossem pessoas que vinham nos visitar. De alguma forma, o kroum se tornou entrelaçado à família, uma parte da comunidade. 

Enquanto trabalhávamos, ele me dizia que uma certa árvore havia sido plantada na época em que nasceu o tio Jamil, outra quando a tia Wadi'a se casou. Cada lugar e cada planta do vinhedo estavam vinculados a algo. Às vezes, relacionavam-se com eventos nacionais ou mundiais, mas a maioria das conexões tinha a ver com eventos familiares. Os campos e o kroum se tornaram um diário da história da família, que ele estava transmitindo a mim.

Jiddu também tinha muito conhecimento sobre as plantas e ervas silvestres que cresciam na região do kroum. "Esta é boa para curar resfriado", dizia. "Esta serve para dor de estômago, e esta é um ótimo tempero para ensopado." Nós colhíamos muitas daquelas ervas e flores, e as secávamos para usar no inverno.

Toda noite depois do jantar, Jiddu acendia sua lamparina de querosene, preparava algum chá sobre o fogo de carvão e, em seguida, começava a contar histórias sobre a nossa família. Ele falava sobre aqueles que tinham se mudado para o exterior, quem tinha se saído bem ou não; a boa ovelha e a ovelha negra. Depois, se não estivesse cansado, começava a recitar poesias ou contar histórias que costumavam ter uma lição de moral. Ele nunca pregou para mim, mas garantia sempre que eu captasse a mensagem.

Mais do que qualquer outra coisa, Jiddu adorava recitar poesias, tanto quanto escutar alguém recitá-las. Às vezes ele me pedia para recitar poemas que eu havia aprendido na escola. Por mais que me esforçasse, nunca conseguia satisfazer seu desejo de escutar um poema depois do outro. 

Uma vez, quando eu tinha mais ou menos 13 anos, ele me pediu para recitar, mas eu só conseguia me lembrar de uma poesia e uma parte de outra. Quando eu parei, ele apagou a lamparina e foi dormir. Na próxima noite, ele pediu que eu recitasse mais poesias. Eu repeti a mesma da noite anterior. Jiddu reclamou, dizendo que aquele era o mesmo texto que eu já havia recitado. Eu confessei que era tudo o que sabia. Jiddu olhou para mim por algum tempo antes de dizer que, se depois de oito anos na escola, tudo o que eu conseguia me lembrar era de um poema e meio, eu estava perdendo o meu tempo e o dinheiro dos meus pais, e que seria melhor se eu deixasse a escola e começasse a trabalhar.

Depois disso, Jiddu nunca mais me pediu para recitar nada, embora continuasse a me contar histórias e ensinando-me sobre várias plantas no vinhedo. No entanto, a poesia nunca mais voltou à nossa vida no kroum.

Subhiyyi na casa da Teta

Esse ritual era uma rotina matinal que nunca variava. Crescemos com a impressão de que nós, os netos, não deveríamos interferir nas atividades da manhã.

Geralmente, seis ou sete mulheres mais velhas, todas viúvas, se reuniam na casa da minha avó. Durante o outono, a primavera e o verão, o encontro ocorria no pátio ao redor da fonte de água; já no inverno, seu local mudava para a sala de estar em volta do braseiro de carvão. Preparavam-se dois ou três argillas (narguilés), e o tabaco aromatizado era misturado e umedecido. Eu adorava o cheiro do tabaco sendo preparado, pois ele costumava ser misturado com melado de alfarroba ou uva. O aroma me dava vontade de comer um sanduíche de melado com tahini, que chamávamos de arouss, a mesma palavra para denominar casamento.

As mulheres começavam a chegar por volta das dez horas. Elas nunca batiam à porta, que estava sempre aberta de qualquer forma. Minha avó se sentava no lugar habitual, e cada mulher se acomodava em seu mesmo lugar de sempre. Todas elas vestiam o mesmo: tannouras (saias longas) pretas sobre várias anáguas, presas à cintura com uma faixa. Na parte de cima, usavam um casaco preto sobre um colete bordado, e um mendeel azul claro ou cinza cobria seus cabelos. Ele era amarrado de modo faceiro em diagonal, uma prática herdada de seus dias de juventude.

Depois que as mulheres chegavam, geralmente alguns minutos entre uma e outra, minha avó dava início ao ritual do café. Os grãos eram depositados no mahmassi, uma pequena panela de aço com um cabo longo para impedir que se queimasse a mão ao segurá-la. Lentamente torrados, eles eram mexidos com uma colher de cabo igualmente longo até que minha avó determinasse que haviam atingido a coloração certa. Os grãos eram então despejados sobre uma bandeja para esfriar e, depois, uma das mulheres os passava pelo mathani (moedor de café). Quando minha avó achava que já havia café suficiente acumulado na pequena gaveta de madeira do mathani, colocava o pó em uma panela com água fervendo sobre o braseiro e começava a mexer. No momento em que o café ameaçava transbordar, ela retirava a panela rapidamente do calor, revolvia um pouco seu conteúdo e a retornava para o fogo. Esse processo se repetia três vezes e, na segunda vez, eram adicionadas algumas colheres de chá de açúcar. O café era servido em pequenas xícaras, e a conversa começava.

O que me impressionava naquele tempo – e continua me impressionando até hoje – era que suas histórias eram sempre as mesmas, contadas a cada dia pelas mesmas mulheres e, ainda assim, elas nunca pareciam se cansar de contá-las ou ouvi-las. As histórias se passavam quase sempre na época de algum evento importante de que todas elas pareciam se lembrar, como uma enchente, seca, epidemia ou revolução. Elas recordavam seus aniversários da mesma forma, quase sempre como a época de algum evento calamitoso. Minha avó nasceu durante a tawshi (revolução) de 1865. Depois de alguns desses eventos serem mencionados, havia um coro de "tinthaker ma tin 'aad" ("que isso seja recordado, mas nunca repetido").

Os Hallab

Quando menino, ainda vivendo em Bab al-Mussalla no Midan, bairro antigo de Damasco, eu me lembro de ser fascinado pelos diversos mascates que circulavam pelas ruas estreitas anunciando em forma de canto seus produtos e serviços. Vendedores de frutas, legumes e doces, amoladores de faca, podadores e compradores de objetos velhos… Todos enchiam o ar com suas melodias. Esses cânticos em rima nunca mencionavam de fato o nome do item oferecido, mas descreviam em detalhes sua cor, frescor e sabor. Os clientes sabiam pelos cânticos tradicionais qual era o artigo vendido, o que também determinaria o menu do dia. As ruas ficavam lotadas de mulas de carga, carrinhos de mão e vendedores que transportavam grandes sddur (tabuleiros) repletos de bolos e outras delícias.

As crianças que brincavam na rua ou estavam a caminho da escola ficavam atentas especialmente aos vendedores de doces. Em sua maioria, os doces eram sazonais. Cozidos, doces de beterraba e pipoca fumegantes eram vendidos no inverno. O gelo com calda, chamado de sweeq, aparecia no verão. Kaak e manaquish eram oferecidos durante o ano todo, enquanto o tamari com melado era vendido apenas em dias de festa. Invariavelmente, a mesada do dia era trocada por um kaak com za'atar (pão com especiarias e azeite), um tamari ou um punhado de hanblas, uma saborosa fruta que pode ser levada no bolso sem se danificar. Os doces costumavam ser compartilhados ou trocados com outras crianças, ampliando dessa forma o poder de compra da mesada diária.

Eu me lembro que o mascate mais interessante era o Hallab que cantava sobre seu leite fresco. Ele tinha um pequeno rebanho de oito a dez cabras damascenas. Em sua maioria, os animais eram marrons, grandes e dóceis, e possuíam dois cordões presos a seu pescoço. As crianças menores se aproximavam das cabras para acariciá-las e abraçá-las no caminho para a escola. O Hallab não se importava com isso, e tanto os animais como as crianças adoravam a atenção.

O vendedor carregava um balde, uma lata de medida e uma longa vara de bambu. Quando alguma dona de casa abria sua porta e pedia leite, ele ordenhava uma de suas cabras bem à sua frente. Se a mulher estivesse planejando fazer coalhada naquele dia, poderia pedir mais leite. Caso alguma cabra começasse a se desgarrar, o Hallab a guiava gentilmente de volta ao rebanho. Depois que o leite fresco era entregue e o Hallab era pago, ele continuava seu caminho, cantando sobre suas belas cabras.

Os demais vendedores não podiam competir com o Hallab, seu maravilhoso rebanho e o prazer de acariciar aqueles animais gentis e amáveis. Eu me lembro que, depois de a versão em pó ter surgido nas prateleiras das mercearias, o leite nunca mais teve o mesmo sabor.

Quando nasce uma criança 

Antigamente, as crianças nasciam em casa com a assistência de uma parteira. Essa era uma ocasião em que os membros femininos da família participavam ativamente. Elas ajudavam a parteira incentivando a nova mãe a "morder um lenço" para parar de gritar e dizendo "sa'adi waladik", que até certo ponto, significa o equivalente a "empurre".” Elas também preparavam café, chá, zhurat e yansoon, bebidas servidas aos visitantes que se reuniam para participar ou apenas satisfazer sua curiosidade.

Assim que nascia a criança, a parteira concluía seus deveres profissionais comunicando ao pai e aos homens da família o parto bem-sucedido e o sexo do bebê. Esse era o momento de pagar e dar gorjetas à mulher. O tamanho da gorjeta dependia se a família desejava ter um menino ou uma menina, e se esse desejo havia sido satisfeito.

Depois que a parteira ia embora, a nova mãe se vestia com um enfeitado penhoar de seda, e o bebê era completamente envolto em um tecido igualmente adornado. O novo pai entrava no quarto e, dependendo de sua situação financeira, colocava alguma joia sobre o travesseiro da mãe e uma ou mais moedas de ouro no berço do bebê.

No quarto da mãe, começaria o zalagheet, um tipo de cântico reservado a dias de festa ou outras ocasiões especiais. Ele era conduzido pela avó até que todos os vizinhos e familiares se unissem à canção.

Por 40 dias, a mãe permanecia na cama sendo mimada e servida, trocando de penhoar de seda várias vezes, conforme as possibilidades econômicas de seu marido. Os vizinhos, familiares e amigos apareciam para felicitar os pais, atualizar as fofocas e dar conselhos não solicitados. Durante esse período, era servido um prato chamado mughly aos convidados, uma mistura de especiarias, arroz em pó e açúcar.

O mughly era seguido de snaniyyi, oferecido quando nascia o primeiro dente do bebê. O snaniyyi é feito de trigo cozido, açúcar, carnes adocicadas e doces muito coloridos. Ele costuma ser servido em uma pilha bem alta sobre uma bandeja com maward e mazahar (flores e água de rosas) polvilhadas e borrifadas no topo. É uma bela visão, além de ser uma delícia.

Para proteger-se contra o mau-olhado e outros infortúnios, contas azuis, pequenos ícones e hijabs eram presos à roupa e ao berço do bebê. As contas azuis e as mãos de Fátima resguardavam a criança contra o mau-olhado, enquanto hijabs, amuletos e talismãs a protegiam contra enfermidades, micróbios e outras calamidades. O hijab é um pequeno pacote triangular costurado que esconde um talismã ou uma prece escrita com poderes espirituais de proteger a criança. Quando o bebê cresce, o hijab pode ser costurado dentro da camiseta, mantendo assim seus poderes de proteção. O hijab nunca deve ser aberto ou desrespeitado de nenhuma forma.

Caridade cega

Um dia, meu pai e eu estávamos conversando sobre tudo e nada em particular, quando ele me disse que iria ao Dayr Saydnaya no dia seguinte e que eu poderia acompanhá-lo se quisesse.

O Dayr era um convento nos arredores de Damasco e a instituição de caridade favorita do meu pai. Eu aceitei com prazer seu convite, pois aquela era uma viagem que eu adorava fazer.

Ele me perguntou qual era a minha concepção de caridade. Eu respondi dizendo que as pessoas apreciam as boas ações porque elas suprem suas necessidades especiais. Ele então me perguntou sobre a caridade cega, quando o doador não conhece a pessoa que se beneficia e não faz ideia de qual seja a necessidade dela. Ele continuou contando-me uma história que ilustrava esse tipo de caridade, que descrevia como a mais sincera de todas.

Havia uma mulher muito rica, a esposa do governador de uma próspera cidade. Uma vez por semana, ela preparava um grande cesto e o selava com alcatrão para torná-lo à prova d'água. No fundo do cesto, escrevia a linha de um poema: "Realize ações de caridade mesmo que elas possam parecer sem propósito, pois nenhum ato fica sem recompensa".” Em seguida, ela enchia o cesto com alimentos, água e roupas, e o deixava no mar para que fosse levado pelas ondas e pelo vento a algum lugar distante.

Certa vez, ela e sua família fizeram uma longa viagem de barco para visitar parentes em outra cidade portuária. Uma forte tempestade destruiu o barco, e muitos a bordo se afogaram. Ela também teria se afogado caso não tivesse se agarrado a uma tábua de madeira. A mulher ficou à deriva por algum tempo até alcançar a costa, completamente faminta, com sede e exausta.

Ela acordou no jardim de alguém. A dona da casa lhe contou que os criados a haviam encontrado na praia e pensaram que estava morta, mas depois perceberam que ainda estava viva e a levaram para o jardim. A senhora disse que ela poderia permanecer com eles como lavadeira, oferta que foi aceita de bom grado.

Um dia, a senhora levou um grande cesto de bambu cheio de roupas e pediu à mulher que as lavasse. Quando a mulher avistou o fundo do cesto, viu a linha do poema que ela mesma escrevia nos cestos que preparava antes de soltá-los no mar. Ela reconheceu seu próprio cesto, sentou-se e começou a chorar.

Quando a senhora da casa chegou para verificar as roupas lavadas, encontrou a mulher soluçando. Ao perguntar por que chorava, a lavadeira lhe explicou que o cesto era um dos que preparava, e começou a descrever como ela os enchia com mantimentos e os largava ao mar pensando que náufragos os encontrariam e usariam para sobreviver da fome e da sede.

A senhora ficou impressionada e lhe contou que, certa vez, ela e seu marido naufragaram. Eles perderam tudo o que tinham. De repente, apareceu um grande cesto, ao qual se agarraram até se aproximarem do litoral. Quando recobraram seus sentidos, caminharam até a cidade, encontraram trabalho e, com o tempo, prosperaram. Por sentimentalismo, ela o manteve em uso, pensando que algum dia descobriria mais sobre o cesto e a linha do poema em seu fundo, o qual faz louvor à caridade cega.

A senhora levou a lavadeira a seus próprios aposentos e, quando seu marido voltou para casa, lhe contou o que havia acontecido. Ele sugeriu que a mulher vivesse com eles como membro da família. Além disso, eles decidiram continuar enchendo cestos com mantimentos e deixando-os no mar, na esperança de que, um dia, alguém necessitado sobrevivesse graças a algum deles.

Dizendo adeus

Depois de uma longa espera, a permissão para viajar para a América havia finalmente sido concedida. Foram feitas reservas em um navio de Beirute à Nova York, confirmando assim a data da partida e iniciaram as despedidas no vilarejo. Parentes, amigos e vizinhos apareciam para tomar café e contar histórias sobre outros que haviam emigrado.

Finalmente, dois dias antes da partida, toda a família viajou a Beirute para se hospedar em um hotel e realizar suas despedidas finais. Minha mãe não podia acreditar que finalmente estava emigrando com sua família para a América. Ela reuniu todos os passaportes, passagens e o que tinha de joias e dinheiro em uma bolsa especial, que mantinha com ela até mesmo enquanto dormia.

Além disso, ela tinha de ter a certeza de que as malas preparadas com presentes para seus parentes na América estavam em segurança. Um grande tapete oriental, comprado em Damasco para presentear sua irmã, havia sido embrulhado separadamente e permanecia sempre à sua vista. Os funcionários do hotel, parentes e eu estivemos todos ocupados montando guarda durante dois dias.

Na manhã da partida, foi comunicado que o navio era muito grande para atracar no píer. Os passageiros, malas, presentes de último minuto e o tapete tiveram de embarcar em um grande barco a remo tripulado por quatro marinheiros. Minha mãe insistiu em sentar-se sobre o tapete, sem se importar com o que isso produziria na estabilidade da embarcação. Quando finalmente chegamos em segurança ao navio, ela solicitou que os marinheiros colocassem todas as malas e o tapete em sua cabine. Eles argumentaram que tudo o que não fosse necessário durante a viagem deveria ser depositado no porão. Para convencê-la, foi preciso que um oficial do navio intervisse, garantindo que nada seria roubado.

Hoje, o tapete está em um local de destaque na casa da minha filha Karen.

Chegando à América

Chegava ao fim a longa viagem marítima. Durante o jantar da noite anterior ao nosso desembarque, descobrimos que o navio, o Vulcania, passaria perto da Estátua da Liberdade por volta das quatro horas da manhã seguinte. Foi tomada uma decisão espontânea de ver o famoso monumento por alguns dos passageiros mais jovens.

Assim, 16 dias após nossa partida de Beirute rumo à Nova York, muitos de nós, da Síria, Líbano e Palestina, nos mantivemos acordados por toda a noite para saudar a Estátua da Liberdade ao amanhecer.

Eu me lembro que era uma manhã clara.